O golpe do token dourado

Bandidos se apoderaram de alguma forma de dados pessoais de correntistas do Banco Itau e estão aplicando golpes usando engenharia social

Token Dourado

Durante o dia de hoje, você provavelmente recebeu e apagou alguns e-mails fraudulentos que simulavam avisos vindos de diversos bancos, estou certo? Apesar de perigosos e de enganar muita gente todos os dias, esses e-mails são frágeis em um ponto importante: eles não apresentam seus dados pessoais, dessa forma, levantam a dúvida se realmente foi enviado por seu banco. Infelizmente esse não é o que me levou a escrever essa matéria hoje.

Um novo golpe anda ocorrendo nas últimas semanas e o foco são os correntistas do Banco Itau. A mecânica, apurada com algumas vítimas, é bem similar e a execução é impressionantemente crível. O que é bastante perigoso pois muita gente provavelmente caiu nessa.

Entenda o golpe

O golpista liga na casa de um correntista e se faz passar por um atendente do Banco Itau. Informa alguns dos dados pessoais para confirmar se tratar da vítima em potencial e lhe fornece algumas informações a respeito de sua conta. Após isso, diz que o banco está oferecendo, por se tratar de um cliente especial (massageia o ego e baixa a guarda), uma migração para um novo pacote de serviços com várias vantagens. O novo pacote se chamaria Personalité Estrela e não teria custo de mensalidade, taxas anuais do cartão de crédito e uso do cheque especial com 30 dias de carência. As ofertas e nomes de pacotes podem variar de tempos em tempos.

Após ter seduzido a vítima com uma oferta tão tentadora, fruto do reconhecimento do banco de quão importante esse cliente é, o golpista segue com a confirmação do restante dos dados do correntista. Incrívelmente, ele possui todos os dados necessários e sensíveis, números de documentos, nome da mãe, números e dados da conta, endereço e até mesmo os últimos dígitos do número de série do token de segurança são informados. E é exatamente onde o golpe se concretiza.

depoimento-marinaO golpista, que já possui todos os seus dados, precisa apenas de duas outras informações para obter sucesso na empreitada: a senha eletrônica do Internet Banking e o código que aparece no token. A desculpa é a mais esfarrapada: eles precisam cancelar o token atual, para enviar um novo, o tal do iToken Dourado que ilustra esse texto (em livre interpretação de algo que não existe). Mas obviamente não é nada disso, e após conseguir os números, executam operações dentro da conta do cliente pela Internet, normalmente TEDs e transferências, além de resgates de possíveis aplicações de investimento.

Angelo, uma das vítimas entrevistadas, não acreditou quando “caiu a ficha” do golpe. “Chegando em casa de noite tentei acessar o Bankline e também estava bloqueado” – disse ele em seu post no Facebook, onde alerta sobre o golpe. “No caixa eletrônico a mensagem era de que eu devia entrar em contato com o Banco. Foi então que eu soube ter sido vítima de um golpe.”

Segundo Angelo, quatro semanas após denunciar no banco e desbloquear suas contas, e o seu gerente afirmar que iriam investigar, ele recebeu a mesmíssima ligação, tentando-lhe aplicar o mesmo golpe. Ele anotou tudo que os bandidos falaram, revelou no final ter conhecimento do golpe e ainda foi ameaçado por telefone – afinal, os bandidos tinham até o seu endereço.

O mesmo apelo foi utilizado para tentar convencer Marina. “Disseram que agora eu era cliente Personalité Estrela, que eles iam me mandar um novo token dourado (que tal?) não pagava mais anuidade e que se eu pegasse empréstimo do meu cheque especial, levaria 30 dias para cobrarem juros” – relatou em entrevista. “Nessa dos juros eu desconfiei. 30 dias? Que banco faz isso? Banco vive de juros“. Marina escapou por pouco, pois estava “distraída, trabalhando e falando no telefone” e foi só aceitando tudo que a golpista falava, mas por esse detalhe dos juros, se tocou e recusou digitar a senha. “Quando falei que não ia digitar senha nenhuma e que preferia ir desbloquear esse novo serviço direto na agência, ela ficou super nervosa“.

Questionamentos sobre a origem dos dados

Todo mundo está cansado de saber, já deu em mais de uma matéria do Fantástico, que qualquer um consegue comprar a base de dados da Receita Federal em qualquer esquina da Santa Efigênia (e baratinho). Na base de declarações, todos esses dados de documentos, endereços e até mesmo o número da conta bancária podem ser acessados, ou por quem declarou investimentos ou por quem adicionou como conta para ser depositada a restituição do Leão.

Isso explicaria uma possível isenção de responsabilidade por parte do banco no vazamento das informações, no entanto, a presença do número serial do token (que é de porte exclusivo do correntista e, segundo o Itau, nem o gerente possui o número completo) é algo que coloca um enorme ponto de interrogação nessa questão. Teriam os dados vazados diretamente da base do Itau? Se os dados vazados foram da Receita, porque o golpe foca no Itau e não se viram relatos similares de outros bancos?

Em um site que agrega depoimentos de usuários sobre ligações de determinados números, pode-se ver que o golpe está sendo bastante ativo (mais aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui…) e são vários os correntistas atingidos.

O posicionamento oficial do Itau

O banco já tem ciência do golpe? Estão tomando alguma providência? Quantos correntistas foram lesados? Como esses dados foram parar nas mãos de bandidos? Enviei essas dúvidas ao banco tão logo comecei a investigar esse assunto e conversei por telefone com um dos assessores de imprensa.

UPDATE 2/07/2014: O retorno oficial por escrito chegou hoje. Copiado abaixo:

O Itaú vai analisar o caso. Cabe destacar que o banco não pede informações pessoais, senhas ou números de ferramentas de segurança em contatos. Em caso de suspeita, o cliente deve procurar imediatamente a instituição em algum dos canais de atendimento. O Itaú disponibiliza diversas informações de segurança no site: www.itau.com.br/seguranca

Pelo telefone, durante a composição da matéria, o assessor me disse que infelizmente o banco “nada pode fazer”. Me pediu dados das vítimas para investigação interna, mas não me retornou até a publicação dessa matéria. Alegou que o banco possui um sistema de segurança muito forte e que os dados não poderiam ter vazado das bases do banco ou dos servidores web. Não soube, no entanto, explicar como os golpistas possuem o número do token e responsabilizou uma possível base terceira pelo restante dos dados, incluindo números da conta e valores investidos.

Segundo a assessoria do Itau, alguns poucos golpes são de responsabilidade de terceiros e o restante (maioria) são de responsabilidade do próprio correntista, seja por não cuidar direito da privacidade de seus dados sensíveis, seja pelo fornecimento voluntário a terceiros ou por terem sido enganados de alguma forma, sendo compelidos a entregarem seus dados (senhas, token, etc).

Ainda segundo o assessor, o Itau não poderia revelar nem se possui ciência desse golpe em específico e quantos (ou mesmo SE) correntistas já alegaram ter sido vítimas.

Como se proteger de golpes como esse

Eu tenho um costume que tem – até agora – me blindado de golpes dessa natureza. Nunca, sob hipótese alguma, eu forneço dados sensíveis por telefone, se não sou eu o originador da ligação. Quando uma empresa me liga e já possui os meus dados, é de se dar meio voto de confiança de que se trata da empresa realmente, mas só meio voto não é o suficiente para que eu forneça minha senha ou o código do meu token de segurança. Jamais!

Então essa é uma dica importante. Se foi você quem ligou e o telefone é comprovadamente da empresa que você procura falar, e se as informações forem realmente necessárias, tudo bem. Do contrário, duvide sempre, questione sempre, peça para executar as operações direto na agência se for o caso ou um número de retorno para você confirmar depois se é da empresa mesmo.

Uma outra alternativa, caso você sinta medo de enfrentar o bandido do outro lado da linha (no caso de você já saber se tratar de um golpe) é desligar o telefone imediatamente. A imensa maioria desses bandidos é composta de estelionatários. Eles não se arriscam com crimes mais “físicos” como um sequestro ou assalto, ficam no risco e esforço mínimos.

E você, já foi vítima de golpe similar? Como resolveu? Relate nos comentários e aproveite para divulgar esse alerta aos seus amigos.

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