Nós somos a resistência

O que aconteceu com as pessoas que costumavam olhar – com certa isenção – para a blogsfera brasileira?

A Resistência

O ano era 2009. O evento era o lançamento de um celular-câmera, na era em que o Android ainda era uma promessa, o Symbian tinha se perdido no caminho da evolução e o Windows Mobile era uma gambiarra sem fim. Resumindo, era uma ótima câmera embutida num celular mais ou menos, mas era uma tentativa. As pessoas acima foram as convidadas pela agência que atendia a marca para uma experiência diferente, vivenciar as capacidades do novo gadget em ambientes descontraídos (passeio, show de noite, etc). Eram os influenciadores digitais da época.

Cai o pano, entra o apresentador.

A querida Bia Granja, do YouPix, usou a foto acima para divulgar seu texto recente nas redes sociais – com sua visão pessoal – sobre o que aconteceu com “a blogosfera”. Segundo o texto da Bia, com a chegada do YouTube, “os blogueiros perderam uma grande parte de sua grandeza e, em alguns casos, seu propósito“.

O texto possui erros, mas o principal é considerar que “A Blogosfera Brasileira” se resume ao grupo de blogs de humor que são pauta dos eventos YouPix-like – que são, em sua imensa maioria, focados em webcelebrities, memes, humor e entretenimento. E digo isso sem diminuir a importância desse nicho, mas apenas destacando que é simplesmente um nicho. Uma das muitas faces ou como a Lúcia Freitas expressou muito bem ontem, uma das muitas blogosferas existentes, que já cansei de repetir ao longo desses anos.

Fama, audiência e relevância

O fato de o Zorra Total ter uma grande audiência, ou o Domingão do Faustão dominar a programação de domingo na TV aberta, não fazem deles programas de referência da “TV Brasileira”. Existem programas interessantes para diversos nichos, além de existirem outras opções de TV fechada, streaming, etc. Cravar o fim do propósito de telejornais, novelas, programas de entrevistas ou qualquer outro nicho por conta da esmagadora audiência do Zorra Total soaria não só arrogante como de certa forma limitado, certo?

Eu não sou dos blogueiros mais antigos (comecei no final de 2006), além disso tenho escrito por aqui “só quando chove bolo” – como disse a Lúcia, no entanto, me sinto parte dessa blogosfera que começou com tudo isso que aqui está. Em 2007 criei o BlogCamp junto com a Lúcia e o Gabriel Tonobohn. Daí surgiram projetos bacanas como os Encontros com o Presidente (blogueiros e presidentes de grandes empresas de tecnologia), o Café.com Blog (diversas empresas encontrando blogueiros selecionados para falar de seus mercados), o BlogBlogs que ajudou muita gente a sair do anonimato, as diversas discussões que tivemos sobre profissionalização da atividade e muito mais. Nunca vivi dos meus blogs, mas sempre gostei de escrever e sempre mantive alguns ativos para continuar exercendo essa atividade.

Nunca quis ser webcelebrity. Não participo da festa do meme nacional, nunca saí na “Vem, Gente“, já fui entrevistado por veículos sérios e escrevi artigos para outros sobre o assunto, mas nunca tive como objetivo “ficar famoso”. Segundo o texto da Bia, esse é o objetivo de ser blogueiro. O propósito é ser famoso e virar pauta. É por isso que ela acha que Cid, do blog Não Salvo, é “a resistência” dos blogs, pois a maioria dos destaques do YouPix são YouTubers (eles não gostam de ser chamados de vlogueiros).

Cara Bia, sinto muito mas você não poderia estar mais equivocada. Cid é um cara criativo, comunicativo e bem humorado que deu muita sorte com o blog dele e conseguiu atingir os objetivos dele através do seu trabalho e de seus colaboradores. Mas de forma alguma seguir o caminho do humor em blogs é ser a resistência.

A resistência é o Judão, um blog de cultura e entretenimento que está no ar há muitos anos e continua fazendo um ótimo trabalho. Resistência é o Tecnoblog, o Meio Bit, blogs de notícias de tecnologia e ciência, no ar há muitos anos e fazendo um ótimo trabalho. Resistência é o Comideria, o Gastrolândia, o Homem na Cozinha, blogs de culinária e gastronomia que estão fazendo ótimo trabalho e gerando conteúdo de qualidade em seu nicho. Resistência é E aí, Beleza?, Pausa para Feminices, Passando Blush e muitos outros de moda e beleza que estão gerando conteúdo diário para milhões de leitores fiéis e atraindo boa parte dos investimento em publicidade. Resistência sou eu, a Lúcia, a Viviane (e tantos outros), que não vivemos de blog, somos apaixonados pelo que fazemos e continuamos tocando nossos blogs pessoais mesmo com todas as dificuldades (perda de audiência, queda em comentários, falta de links).

Nós somos a resistência.

YouTube não acabou o propósito dos blogs, muito menos o Twitter, Facebook, qualquer outra rede social, o Tumblr, o Medium, etc. Cada vez que aparece alguma coisa nova vem esse papo de “agora os blogs já eram”. Blog é uma mídia, um canal, uma ferramenta e somente isso. E enquanto blogar for gratuito (ou quase) e fácil, mais e mais pessoas criarão seus blogs todo santo dia, a plataforma mais democrática de publicação de conteúdo na Internet disponível atualmente. Video não faz sentido pra todo mundo, da mesma forma que audio não faz e podcast continua sendo algo restrito a poucos produtores de conteúdos (alguns sensacionalmente bons e não citados nesse post).

Isso tudo sem considerar também – e é importante deixar isso listado – a sazonalidade dos nichos. Em 2009 os blogs de tecnologia eram a “bola da vez”. Mas depois já foram os blogs de humor, de viagem, estão explodindo agora os vlogueiros e os blogs do nicho feminino. Quem poderia apostar no próximo nicho? Quem poderia apostar quanto tempo dura esse frisson? Nichos vem e vão, blogs permanecem.

É como disseram uma vez na falecida lista Blogosfera, do Yahoo! Grupos, “a blogosfera é uma panela, sim, mas a tampa está sempre aberta“. No mais, esse texto da Bia teve um lado bastante positivo, que foi nos lembrar de nossa principal características e nos fazer conversar novamente.

Afinal, Blogs são conversações.

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