Diário de Classe, um exercício de democracia

Cansada de suas reclamações sobre a situação precária da infraestrutura e das aulas não terem a devida atenção, Isadora Faber resolveu criar – sozinha – uma página no Facebook para relatar seus dias, sua visão estudantil do lugar em que passa a maior parte do seu dia e onde espera adquirir educação e conhecimento para a vida.

Isadora FaberIsadora Faber é uma menina de 13 anos, que mora em Florianópolis e estuda a sétima séria na Escola Básica Municipal Maria Tomázia Coelho. Cansada de suas reclamações sobre a situação precária da infraestrutura e das aulas não terem a devida atenção, resolveu criar – sozinha – uma página no Facebook para relatar seus dias na escola pública, sua visão estudantil do lugar em que passa a maior parte do seu dia e onde espera adquirir educação e conhecimento para a vida.

Isadora, uma estudante do ensino básico, exercendo seu pleno direito à opinião, fazendo o seu papel na democracia do país, sendo muito mais patriota que a grande maioria de nós, que só lembramos do termo patriotismo em época de Copa do Mundo, está sendo apoiada, muito apoiada, por pessoas que não a conhecem, mas a admiram. Além dos seus pais, claro, de quem provavelmente herdou o que sabe de cidadania. E só. Porque dentro da escola, não somente pelos “alvos” das críticas (professores e funcionários) mas também – pasmem – pelos seus colegas, aqueles a quem Isadora também defende, ela está sofrendo represálias e críticas, além de ameaças.

Uma lição de cidadania que nem todo mundo entendeu

O que Isadora está fazendo por si e por seus colegas é somente exercer a sua cidadania. Muitos de nós já passamos por situações em que gostaríamos de gritar para todo mundo ouvir e quem sabe resolver um problema que nos aflige. Buracos nas ruas e calçadas, ausência de ciclovias na cidade, trânsito caótico e desrespeito às leis que o regem, maracutaias na política, assédio moral no trabalho ou escola, bullying (que está na moda), preconceito, etc etc etc. Mas… nós mesmos, não fazemos nada. Reclamamos muito, ficamos emputecidos, no máximo comentamos com um ou outro, e olha, ainda tem alguns de nós que chega a postar em redes sociais. E só.

Quem aqui já fez abaixo assinado para resolver problemas que o cercam? Quem já enviou cartas, e-mails, quem já ligou nos órgãos competentes para tentar resolver um problema na cidade, no bairro, na sua rua? Quem já participou de protestos (não na Internet, please)? Quem já saiu nas ruas pra gritas pelos seus direitos?

Sim, tem gente que faz isso. Muita gente até, mas são poucos comparados à massa de milhões de acomodados, como eu e você – não estou me excluindo – que não fazem nada ou quase nada, apenas esperam que isso mude um dia. Bom, Isadora foi lá e fez o que estava dentro das suas capacidades, de uma menina de 13 anos, estudante de escola básica. E ganhou a mídia por isso. E ganhou respeito por isso. E ganhou inimigos por isso!!!

Eu, se professor fosse dessa garota, teria orgulho, isso sim. Um sinal de que não estava ali naquele ambiente falando apenas para cumprir tabela e horário, como a grande maioria faz, como boa parte dos estudantes se comporta. Isadora quer um melhor ambiente de estudo, quer melhores condições no ensino, quer mais dedicação dos professores. E eu não consigo entender onde isso é errado.

Como todo gato escaldado tem medo de água fria…

Eu tenho apenas um medo nisso tudo. A repercussão é tão grande, mas tão grande. E estamos em época de eleições, todo mundo sabe (mesmo os mais alienados, por conta do chatíssimo horário eleitoral na TV). Eu tenho medo de que toda essa comoção seja apenas manipulação de algum político sem noção. Ou que não seja agora, mas se torne depois.

Mas se for, ou se tornar, seria algo tão feio, mas tão feio, que nenhum benefício traria ao político, pelo contrário.

Por favor. Em nome de toda e qualquer coisa pura que exista. Em nome da nossa experança na raça humana, que isso seja legítimo, como eu acredito que seja. E que sirva de exemplo para muitos.

Assim seja.

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